Quando nos tornamos “alvos”

O filosofo francês Jean-Paul Sartre, em seu livro O Ser e o Nada (1943), afirma que a vergonha não nasce simplesmente do que fazemos, mas do momento que percebemos que estamos sendo vistos. Para ele, “tenho vergonha de mim tal como apareço ao Outro”. É sob o olhar do outro que deixamos de ser apenas sujeitos de nossas ações e passamos a nos enxergar como objetos – definidos, julgados e reduzidos a uma imagem que não controlamos. 

Essa ideia existencial pode parecer distante da vida cotidiana. Mas ela ajuda a iluminar um fenômeno muito atual: os golpes bancários e digitais

A vergonha como experiência do olhar 

Para Sartre, a vergonha surge quando percebemos que alguém nos vê de um certo modo. Não é o erro em si que nos paralisa, mas o fato de sermos expostos. O outro nos “fixa” em uma identidade momentânea: o distraído, o ingênuo, o inadequado. 

Nesse instante, algo muda: não somos mais apenas quem age, somos também aquilo que aparecemos ser para alguém. Essa experiência revela uma vulnerabilidade fundamental da vida social: estamos sempre, de algum modo, à mercê do olhar do outro. 

Do olhar existencial ao olhar estratégico 

É aqui que a analogia com os golpes bancários começa a fazer sentido. 

O golpista também olha — mas não para reconhecer uma pessoa. Ele olha para identificar fragilidades. Não vê um indivíduo complexo, com história, inteligência e cuidado. 

Vê um alvo

  • alguém com medo de perder dinheiro, 
  • alguém com pressa, 
  • alguém cansado, 
  • alguém pouco familiarizado com tecnologia. 

Assim como no conceito sartreano, somos reduzidos a uma imagem. Mas, nesse caso, não é uma experiência existencial: é uma estratégia de exploração

Não é fraqueza, é exposição 

É fundamental deixar algo claro: ninguém cai em golpe porque é fraco, burro ou descuidado “por natureza”. 

As pessoas se tornam alvos porque: 

  • vivem sob pressão, 
  • confiam em instituições, 
  • respondem a situações de medo e urgência, 
  • estão inseridas em sistemas cada vez mais complexos. 

O golpe acontece quando alguém nos enxerga não como sujeitos, mas como oportunidades. A vergonha que muitas vítimas sentem depois não vem do erro, mas do fato de terem sido vistas — e manipuladas — a partir de um ponto vulnerável. E isso diz muito mais sobre quem aplica o golpe do que sobre quem o sofre. 

Recuperar o lugar de sujeito 

Talvez a lição mais importante dessa aproximação entre Sartre e o mundo da prevenção seja esta: recuperar o lugar de sujeito é recuperar tempo, consciência e escolha

Golpes funcionam quando somos empurrados para reações automáticas. Pensar, pausar e desconfiar é uma forma concreta de resistência. 

Dicas práticas de segurança contra golpes bancários 

Para fechar, algumas orientações simples — mas essenciais: 

  • Desconfie de urgência extrema 

Golpistas criam pânico (“última chance”, “sua conta será bloqueada agora”). 

  • Bancos não pedem senhas, códigos ou confirmações por WhatsApp ou telefone 

Nunca compartilhe códigos recebidos por SMS. 

  • Não clique em links recebidos por mensagens ou e-mails suspeitos 

Mesmo que pareçam oficiais. 

  • Verifique sempre por canais oficiais 

Em caso de dúvida, desligue e ligue você mesmo para o número do banco. 

  • Fale sobre golpes 

Compartilhar informações reduz o isolamento — que é um dos maiores aliados do golpista. 

  • Não sinta vergonha de pedir ajuda 

A vergonha protege o golpista, não a vítima. 

Jean-Paul Sartre mostra que a vergonha nasce quando nos vemos pelo olhar do outro. Trazer essa ideia para o debate sobre golpes bancários não é dizer que a vítima é responsável, mas lembrar que o olhar que nos transforma em objeto – seja existencial ou estratégico – nunca define quem somos.  

Rafael Cordeiro – Assessor de Comunicação e Estratégia Antifraude do BB, administrador com especialização em Gestão de Projetos e MBA em Design Thinking. Há mais de uma década no mercado financeiro, seus últimos cinco anos foram dedicados a segurança. Fã de carteirinha de jogos de tabuleiro e RPG, busca o “sucesso crítico” quando o assunto é agir contra os golpistas.





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